Seja como for a decisão, a grande história do Barezão desse ano é o Manaus Futebol Clube. O Gavião ainda é virgem nunca tinha chegado em uma final, mas em compensação, o treinador do time, Aderbal Lana, todo ano tá nas cabeças. Sim, ele mesmo, o mito, o interminável Lana. E isso particularmente me deixa intrigado: como que o Lana com quase três dígitos de idade ainda consegue ser tão dominante no Amazonas?
A cada boa campanha, final ou título de Campeonto Amazonense, o Lana sempre reforça o quanto é bom naquilo que faz. Isso não é novidade. Mas nesse ano o negócio foi diferente. Ele simplesmente ESFREGOU NA CARA de todo mundo o quanto é bom.
Afinal, vejamos. Ele começou o campeonato no Rio Negro, um time que não ganha nem par ou ímpar desde 2001. Liderou o Barezão por várias rodadas e sempre esteve confortável no G4. Até que, misteriosamente, o cara simplesmente pediu pra sair ou foi demitido do Galo. Até aí tudo bem.
Mas como bom treinador que é, Lana não teve muito tempo pra ficar pescando ou curtindo aquele cigarro (quer dizer, pra isso sempre tem). O Manaus FC foi lá e buscou o cara. E quando fez isso, o Gavião tava relativamente distante do G4. Ali naquele meio termo entre G4 e rebaixamento, sabe?
Pois o Lana simplesmente fez o Manaus engrenar. E estamos falando de um clube novo, sem tradição no cenário local. Empilhou vitórias, terminou o campeonato na TERCEIRA colocação, e com requintes de crueldade, simplesmente deixou o Rio Negro FORA do G4. Aquele Rio Negro com o qual ele liderou várias rodadas. Um plot twist de fazer inveja aos roteiristas da Netflix.
Ok, eu ainda não respondi a pergunta. Mas agora vou começar: o Lana por si só impõe respeito perante a qualquer elenco e diretoria. Uma coisa é trabalhar com um técnico, outra coisa é trabalhar COM O LANA.
Mas de que forma isso faz diferença? Em relação ao elenco, todos sabemos que, no futebol amazonense, muitos jogadores se comportam como atletas amadores. Vida desregrada fora do campo, indisciplina. Com Lana, isso não tem vez. Além de ganhar o grupo internamente, ele também preza pelo profissionalismo.
Mas o aspecto mais importante é em relação à diretoria. Lana tem autonomia suficiente para não aceitar interferências. Veja, se Lana tem trocado tanto de clube nos últimos tempos, é justamente por isso. Cada macaco no seu galho. Ele já não é obrigado a aturar determinadas situações. Se o Fast definha neste ano, como o Nacional definhou em seguidos anos, as interferências internas estão entre as explicações. Muita gente querendo bater o martelo. Tudo o que Lana jamais aceita em seu trabalho.
Aderbal conhece o futebol amazonense de cabo a rabo. Conhece o ORGANISMO do nosso futebol. Os jogadores, os vícios, os segredos. Uma vivência que poucos se dão ao luxo de atingir. E nem por isso é acomodado: se você frequenta os estádios locais, provavelmente já esbarrou com o Lana na arquibancada em um Fast x Penarol da vida. Mais do que tudo, ele gosta da coisa.
Mas aí você pode ouvir que Lana é um treinador ultrapassado, de conceitos presos ao passado, e que ainda assim não entende o sucesso que ele ainda faz. É aí que entra o meu outro ponto: o futebol amazonense não acompanhou a evolução do jogo. E isso não diz respeito só a parte tática, mas também preparação física, ciência, gestão e tantas outras coisas.
Estamos tão atrasados que até o Acre nos engoliu. Nenhum time amazonense nos últimos anos chega perto do nível de organização do time do Atlético Acreano, por exemplo. Não falo de resultados, mas de FUTEBOL jogado.
O que isso tem a ver? Lembro de uma conversa que tive com o Lana. Ele me contava de uma palestra que o Rogério Micale, treinador campeão olímpico, fez aqui em Manaus. Nessa palestra, Micale explicava sobre a importância dos novos conceitos do futebol. Linhas próximas, pressão alta, capacidade associativa, etc.
Na ocasião, Lana questionou Micale ao dizer que, nos centros mais distantes, isto era uma utopia. Como reproduzir estes conceitos em um cenário sem recursos, com jogadores mais limitados e estrutura mínima?
Isso diz tudo. É óbvio que, nessas condições, Aderbal Lana ainda faz e vai continuar fazendo a diferença. Não falo isso para diminuir o que ele é. Lana já está entre os maiores treinadores da história do futebol amazonense. Mas é a realidade nua e crua.
Quando o futebol amazonense der um salto à frente, Lana e os "Lanas" da profissão naturalmente passam o bastão. Na verdade ele já fará isso antes, já que não há nenhuma perspectiva de melhora por aqui. Enquanto isso, Lana pode empilhar mais um título. Com um time menor, com um elenco que ele sequer montou. Porque aqui, independente do contexto, ele ainda é rei. Aderbal Lana pode tudo. Tem que respeitar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário